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NÃO A AUTO REVERÊNCIA
Na República do Benim, costa oeste da África, é costume ouvir
solenemente os antigos à beira da morte, para que repassem todo o seu
conhecimento e sabedoria aos seus sucessores. A cultura deles passa longe de
nós, brasileiros, que quanto mais velha é a pessoa mais desinteressante e
descartável ela fica.
Como se isso já não fosse tão preocupante, observo que
não basta chegar a certa idade para ser colocado de escanteio. Não temos a
tradição de cultuar e aprender com a trajetória dos outros, porque achamos que
nascemos prontos, como se dispensássemos referências.
Acredito que aqui é o único país do mundo onde os jovens
dizem montar uma banda de rock literalmente original, desprezando qualquer
influência. O único lugar em que novos escritores são prepotentes ao ponto de
intolerar semelhantes.
A terra do gênio prematuro e incompreendido. Que confia
cegamente nas próprias intuições sem revisitar filósofos, clássicos, ou mesmo o
seu colega de profissão que já fez um pouco mais. Pelo contrário, o enxerga
como inimigo, ameaça. É nessas horas que podíamos aprender bastante com a
cultura africana.
Quando lancei o meu primeiro livro, fui atrás daqueles que já
estavam na estrada há anos, tanto no intuito de aprender com a experiência como
também presenteá-los. A resposta foi a amizade sincera de cada um deles. Hoje,
vejo que alguns que estão entrando no meio agora, além de não terem me
procurado, torcem o nariz quando me veem, me boicotam de eventos.
Não que eu tenha algo extraordinário a acrescentar. Não se
trata disso. Mas o fato é que possuo uma luta inegável e uma carreira em curso
de consolidação, iniciada bem antes. Por esta razão, se não estimam a mim,
queria que ao menos respeitassem a minha história.
Talvez o problema seja justamente a ausência de cabelos
brancos. E veja que paradoxo: ao mesmo tempo em que os mais velhos se tornam
obsoletos, há neles uma força que nos atraem por mero interesse: a
credibilidade – como diria Eduardo Sterblitch.
Então um dia, talvez, eu seja uma rapariga velha e respeitada.
Onde eu receba jovens na minha casa para falar de literatura e da vida, tomando
um café ou um bom whisky, enquanto o resto do mundo briga entre si por espaço.
VANESSA TEODORO TRAJANO
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